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Dos Cerrados e de suas riquezas | Articulação do Extrativismo no Cerrado

Articulação do Extrativismo no Cerrado

17 de setembro de 2008

Dos Cerrados e de suas riquezas

por Povos do cerrado


texto de Carlos Walter Porto-Gonçalves[1]

Ao contrário dos muitos elogios que vemos tanto na mídia como nos meios acadêmicos ao sucesso do agronegócio que avança pelos Cerrados brasileiros, há uma avaliação diferente que, infelizmente, não tem encontrado espaço de divulgação. Tudo se passa como se só restasse aos Cerrados o destino único, aquele que lhe vem sendo dado pela expansão da monocultura empresarial. É o que vêm tentando chamar a atenção lideranças comunitárias de camponeses, de afrodescendentes (quilombolas) e de povos originários (indígenas), além de muitos técnicos e cientistas de várias instituições de pesquisa e de universidades, além de algumas ONGs, que vêm chamando a atenção para as contradições acerca do destino que a sociedade brasileira vem dando aos Cerrados e suas áreas adjacentes desde os anos 60, sobretudo após a fundação de Brasília. Assim, vem sendo negada à sociedade brasileira até mesmo o conhecimento do rico patrimônio cultural e biológico que dispõe para que, conhecimento de causa, possa decidir qual o melhor destino a ser dado a essas regiões que abrangem nada mais nada menos que 35% do território nacional.

A desconsideração da riquíssima diversidade cultural e biológica dos Cerrados por parte das elites econômicas, políticas e, até mesmo, acadêmicas, autorizou que nesses últimos anos, mais do que os Cerrados[2], suas áreas fossem ocupadas pela expansão de um modelo agrário/agrícola com base na monocultura empresarial, cujo impacto socioambiental pode ser observado não só no acentuado êxodo rural, com suas seqüelas de perda de diversidade cultural e, ainda, de uma extrema concentração fundiária e de riqueza como, também, pela degradação das condições ecológicas - erosão genética (diminuição acentuada da fauna e da flora), perda de solos, desequilíbrio hídrico (rios perenes que se tornam intermitentes ou, simplesmente, deixam de existir; enchentes e secas mais acentuadas) e, ainda, pela contaminação de rios e lagoas pelo uso de agrotóxicos.

Ignora-se, até mesmo, que os Cerrados brasileiros reúnem a maior diversidade biológica entre todos os ecossistemas brasileiros, eis o absurdo a que se chegou numa época em que a diversidade biológica e todo o conhecimento a ela associado se tornaram valor estratégico. A informação de que os Cerrados detém a maior diversidade biológica e um enorme acervo de conhecimentos que fazem parte do habitat e do habitus (Bourdieu) dos seus habitantes[3] surpreende, tão forte é o imaginário acerca dessas ‘árvores tortas de tão vastas extensões de terras vazias‘. Eis o imaginário dominante sobre os Cerrados. Sublinhemos que se trata de um imaginário construído sobre os Cerrados e não a partir dos Cerrados, eis uma primeira questão a ser considerada. Poder-se-ia mesmo dizer que se trata de um imaginário dominante construído contra os Cerrados e seus povos na medida que ao ignorar as populações dessas vastas regiões se atualiza um dos principais mitos da ideologia colonial - o do vazio demográfico - que, por trás de uma pretensa objetividade calcada na densidade demográfica (relação população área), mais não faz do que autorizar a ocupação, a conquista se dizia durante o período colonial, já que a região seria vazia.

O destaque que se dá à Mata Atlântica e à Floresta Amazônica revela que a problemática ambiental entre nós tem sido pautada muito mais pela agenda externa do que interna. Só isso explica o esquecimento dos Cerrados e da Caatinga e de seus Povos, até porque a biomassa contida em um hectare de Cerrado e Caatinga, essa sim, é inferior ao daqueles ecossistemas e, consequentemente, menor é a quantidade de CO2 emitido pelas queimadas nessas áreas, uma das principais preocupações dos europeus com as queimadas. Assim, não só os Cerrados e a Caatinga ficaram de fora dos ecossistemas considerados como patrimônio nacional pela Constituição Federal de 1988, ao contrário do Pantanal, da Mata Atlântica e da Amazônia, como é muito mais difícil obter financiamento e apoio para garantir que toda a rica biodiversidade e todo o acervo de conhecimentos tecidos pelos povos que aí habitam, encontrem condições para se reproduzir e estabelecer um diálogo em melhores condições com a sociedade envolvente.

Os Cerrados Brasileiros apresentam uma riquíssima diversidade biológica, entre outras razões, por sua localização geográfica, posto que faz  contato com todos os outros grandes ecossistemas brasileiros - com a Floresta Amazônica, com a Caatinga, com a Mata Atlântica e com a Mata de Araucária (Vide mapa 1 ‘Os Cerrados e Suas Áreas Adjacentes’). Considere-se, ainda, que três das regiões mais complexas do ponto de vista ecológico do país têm relação com os Cerrados, a saber: as duas maiores áreas continentais alagadas do planeta - (1) o Pantanal Matogrossense e (2) as Várzeas do Araguaia - têm a savana (cerrado) como formação ecossistêmica dominante, além da (3) Zona dos Cocais (com seus Babaçuais, Carnaubais e Buritizais), no Maranhão e Piauí.

O fato dos Cerrados terem essa megabiodiversidade não deveria surpreender se para caracterizar a região partíssemos dela própria e, sobretudo, da enorme diversidade de seus povos e culturas. Afinal, o fato de fazer contato com tão diferentes formações ecossistêmicas, necessariamente faz com que haja uma extensa área de diferentes contatos que, como disse Anísio membro de uma comunidade originária[4] do Pantanal, ‘a natureza quando se encontra não subtrai, não se divide. Ela se multiplica. Ali a vida é mais’. Assim, ali onde duas formações ecossistêmicas distintas se encontram, a natureza é mais complexa do que nas áreas das formações que se encontraram. Assim, essas regiões de contato, do que os Cerrados, mais do que qualquer outro ecossistema, é detentor das maiores extensões, deveriam estar mais protegidas do que qualquer outra, até porque aí reside maior riqueza em complexidade de vida. As populações que aí vivem e que teceram seus mundos de vida em contato com essa rica biodiversidade deveriam merecer todo o apoio pelo conhecimento que detém pela importância para toda a humanidade.

A importância dos Cerrados é ignorada a tal ponto que não tomamos em conta que essa formação ecossistêmica dominava a maior parte do atual território brasileiro há 12.000 anos atrás, conforme se pode observar no mapa do geógrafo Aziz Ab’Saber (Vide Mapa 2). É sabido que de 12.000 anos para cá, com o recuo da última glaciação, os climas do planeta se tornaram, de um modo geral, mais úmidos e, com isso, proporcionaram as condições para que formações florestais voltassem a se expandir. Até mesmo na atual Amazônia, por exemplo, predominavam os Cerrados no período compreendido entre 12.000 e 18.000 anos. Assim, os Cerrados brasileiros se constituem num ecossistema extremamente original, não só por sua estabilidade ao longo do tempo, pelas múltiplas paisagens que o conformam, com destaque para a diversidade de contatos já acima aludida, mas também pelo fato de que a partir de suas veredas, para ficar com a rica linguagem camponesa consagrada por Guimarães Rosa, ou se se preferir uma linguagem mais científica, de seus vales, se formaram ricas florestas galerias e matas ciliares, sobretudo de 12.000 anos para cá.

Os extensos e antiqüíssmos chapadões sedimentados desde o paleozóico, com suas topografias planas, paisagem geomorfológica dominante nos Planaltos Centrais dos nossos Cerrados, se constituem na mais importante área de recarga hídrica de todo o país, assim como uma das maiores reservas de água doce do mundo, onde nascem importantes rios do Brasil e do continente sul americano - o Paraguai e seus formadores (entre eles o Cuiabá, o São Lourenço e o Taquari), o Paraná e seus formadores (entre eles o Paranaíba), o São Francisco, o Doce, o Jequitinhonha, o Parnaíba, o Itapecuru, o Tocantins, o Araguaia, o Tapajós, o Xingu, além de vários afluentes do caudaloso rio Madeira. Esse fato valeu aos Cerrados o epíteto de ‘caixa d’água’[5] do Brasil. Já aludimos que as duas maiores extensões de terras continentais alagadas do planeta - o Pantanal e o Araguaia - têm suas dinâmica hidrológica relacionada aos Cerrados e suas chapadas. Assim, se o Brasil é visto pelo mundo, cada vez mais, como o país de maior reserva hídrica do planeta, os Cerrados têm, também por essa razão, uma importância ímpar.

Assim, um outro mito, também repetido ad nauseam, que ressalta a relação entre disponibilidade de água e a existência de florestas, cai por terra. Não que não exista essa relação, sublinhe-se. Todavia, é preciso considerar que a disponibilidade de água é mais complexa do que sugere essa relação unívoca com as florestas. Afinal, a maior ‘caixa d’água’ do país é exatamente a região dos Cerrados, área de recarga essa que, diga-se de passagem, não tem proteção na legislação ambiental que, como sabemos, protege o topo dos morros florestados e as beiras dos rios, mas não protege o topo das extensas chapadas dos Cerrados que é, repito, a maior área de recarga hídrica de um país que detém a maior reserva de recursos hídricos do planeta.

Considere-se, ainda, que a água nos geraesnão encharca  poça’, ‘sorveta’, como bem disse Guimarães Rosa, infiltrando-se em minutos, mesmo depois de uma chuva torrencial. Os solos profundos e antigos dos Cerrados vêm sorvetar essa água para grandes profundidades e esse fato limitou a prática agrícola nas grandes extensões das chapadas. Assim, as chapadas foram e são usadas pelos camponeses para o extrativismo, para a caça, para a coleta e para a criação de gado à solta. Daí terra generosa, terra de todo mundo, terras e campos e serras geraes. Só para ficarmos com um exemplo, grande parte dos remédios que curam a hipertensão advém da rutina, substância química obtida da faveira, ou fava d’anta, ainda hoje fonte de renda obtida nas chapadas por inúmeras famílias nos cerrados do Goiás, do Piauí, do Tocantins, de Minas Gerais e do Maranhão. É essa água que infiltra desde as chapadas que vai alimentar o lençol d’água e as fontes e nascentes dos rios, assim como os solos para a agricultura nas veredas, onde estão as matas galerias e as matas ciliares. Uma compreensão mais holística dos Cerrados nos aponta claramente para a dependência das matas ciliares e das matas galerias da recarga hídrica das chapadas e, assim, essas matas estariam mais protegidas por uma legislação que proteja as chapadas, área de recarga hídrica, do que por uma legislação que as proteja diretamente. É preciso ver o geossistema como um todo e, para isso, ouvir os Povos dos Cerrados, com certeza, muito ajudaria.

Assim, mais do que uma legislação ambiental inspirada em paradigmas em crise, como o que caracteriza o pensamento eurocêntrico da ciência moderna, que separa natureza e cultura em campos claros e distintos, devemos ser capazes de reconhecer que toda essa riqueza chegou até nós junto com saberes de povos que conviveram longo tempo manejando essas chapadas e veredas. Se hoje podemos falar em proteger essas matas galerias e matas ciliares, em que reconhecemos seu inegável papel na complexidade da vida nos Cerrados, e mesmo a estética de seus buritizais, por exemplo, é porque alguns povos, ao longo de milênios, e outros, já há alguns séculos, desenvolveram saberes e sabores com os quais viveram e nos legaram todo esse patrimônio.

No caso dos Cerrados, a incompreensão da complexidade das múltiplas relações dos diferentes povos, por meio de suas distintas culturas, com a natureza e, ainda, a tentativa de se formular uma lei universal que sirva para qualquer lugar[6] e, assim, ignora os saberes locais tem, ainda, servido de pretexto para criminalizar os camponeses - geraizeiros, retireiros, vazanteiros, barranqueiros e outros - que têm suas vidas estreitamente ligadas às veredas, várzeas, varjões, pantamos, córregos e corgões, lagos e lagoas, brejos e brejões. Com certeza, Manoelzão, o camponês que tão bem serviu de inspiração a Guimarães Rosa, teria sido expulso de suas terras, caso essa legislação ambiental vigorasse nos Cerrados há mais tempo. A humanidade, com certeza, teria sido privada de uma das obras primas da literatura mundial, o Grande Sertão, Veredas, cujo título abriga em si mesmo a distinção de paisagens feita pelos geraizeiros: de um lado, o grande sertão, os geraes, são as chapadas, onde o gado vive à solta, onde se recolhe a madeira, um remédio, um fruto, hoje em grande parte privatizadas e dominadas pelas grandes corporações e, de outro, as veredas, onde os camponeses plantam, criam pequenos animais e, nos rios, pescam.

Acrescente-se que na região dos Cerrados, ao contrário da visão construída sobre a região e não a partir da região, é onde se encontra o mais antigo fóssil de presença humana no Brasil - Luzia, viveu nos Cerrados - dando conta que há um rico e original legado de conhecimentos dos povos originários sobre suas plantas e seus animais, seus ciclos vitais e, assim, mais do que biodiversidade há nessas áreas uma riquíssima diversidade lingüística e cultural. Povos originários, como os Kaiapó, não só viveram pelos Cerrados, como manejaram seu potencial de produtividade biológica primária para plantarem verdadeiras florestas em seu seio. Populações negras, fugindo da escravidão e da opressão, foram buscar liberdade nas áreas de mais difícil acesso dos Cerrados - nas serras, nas áreas mais acidentadas (Vide os Kalunga em Goiás e o Quilombo do Mata-cavalos em Mato Grosso, para ficarmos somente com dois casos), nas áreas mais alagadas onde, muitas vezes, os brancos sequer ecologicamente se adaptavam (Vide o Gorutuba no norte das Minas Gerais) - onde se teceu uma rica cultura em que souberam retirar dos Cerrados todo o seu enorme potencial de produtividade biológico primário e, assim, garantir a segurança alimentar necessária que lhes permitiu chegar até nossos dias, com um enorme acervo de conhecimentos - de remédios e alimentos, tanto para o estômago como para a fantasia, como corantes e sementes com fins estéticos e religiosos - colares, anéis, braceletes (Vide o belíssimo trabalho da Articulação Pacari). Populações camponesas com diferentes matrizes culturais, muitas originárias de populações brancas pobres, viveram pelos Cerrados longe de um Brasil que desde o período colonial mantém a mentalidade e a prática moderno-colonial de produzir para exportar. Essas populações, ao contrário,  não só aprenderam com os povos originários nos Cerrados, como desenvolveram toda uma rica combinação de agricultura, extrativismo e criação de animais de pequeno e grande porte que não só abasteceu vilas e povoados nos surtos de mineração que tiveram tanta importância na história dessas áreas como, ainda hoje, constitui a base da rica culinária mineira e goiana, como podemos observar nas feiras e mercados onde a devastação da cultura do Um - a monocultura - não avançou.

Eis, enfim, o grande conflito que se dá hoje nos Cerrados - de um lado, aqueles que arrogantemente ignoram toda essa enorme riqueza de vida, tanto no sentido biológico como cultural, e querem impor a cultura do UM e para poucos e, não bastasse a desigualdade e concentração de riqueza e poder que engendram, impedem que essas outras e diferentes matrizes de racionalidade que ali historicamente se desenvolveram possam se reproduzir. A expressão não é retórica, haja vista a apropriação violenta que vem sendo feitas dessas terras sobretudo das chapadas[7] por parte do agrobusiness que, com seus pivôs centrais para captar água nos profundos solos dessas paisagens, estão dilapidando não só esse recurso como, também, todo o potencial agrário-agrícola daqueles povos na medida (1) que estão lhes subtraindo as chapadas, uma das unidades fundamentais de suas paisagens, onde recolhem a faveira, o baru, o pequi, o babaçu, o bacuri e deixam suas cabeças de gado pastarem à solta - daí chamarem essas áreas de Geraes, num sentido muito próprio e preciso de terras que pertencem a todos, enfim  terras comuns como, ainda, vêm seus rios, lagos, lagoas, pantamos, varjões e várzeas secando pelo uso intensivo e pelo enorme desperdício por evaporação da água que é captada para plantar grandes monoculturas de soja, de eucalipto, de milho, de girassol, de algodão. Pivôs da discórdia, chamaram os camponeses do Riachão, na região de Montes Claros, norte de Minas Gerais.

Por toda sua importância natural e cultural, os Cerrados bem que merecem um destino diferente daquele que o agronegócio vem lhe dando e a sociedade brasileira, em grande parte por uma desinformação interessada acerca de sua riqueza, vem autorizando. As enormes vossorocas e ravinas que já podem ser observadas em Goiás, no Mato Grosso do Sul, no Mato Grosso e em Tocantins, e cujos sedimentos vêm assoreando os rios da região e contribuindo para suas enchentes mais acentuadas, a perda acelerada de diversidade biológica, o desequilíbrio hídrico e a contaminação dos rios por agrotóxicos, assim como as cada vez maiores dificuldades para a reprodução dos Povos dos Cerrados, sobretudo em face das limitações de terras pela usurpação de suas chapadas, nos obrigam a alertar a sociedade brasileira e mundial para esse verdadeiro crime contra a cultura e a natureza que se está perpetrando, rigorosamente em benefício de muito poucos, numa conjuntura que pressiona pelo uso intensivo de recursos naturais para pagar uma dívida eterna, cujos rastros outros ciclos econômicos, como o do pau brasil, da cana, o do ouro, o do café, esses mais antigos, deixaram na Mata Atlântica, assim como os mais recentes como o do mogno e do gado, vêm deixando na Amazônia. Afinal, matar e desmatar são práticas que sempre andaram, infelizmente, juntas na conformação do território brasileiro. É preciso ouvir os Povos dos Cerrados, tal como o fez Guimarães Rosa. O fato de o Grande Sertão, Veredas circular em tantas línguas indica o caráter universal da singularidade dos Cerrados e dos seus povos.


[1] - Carlos Walter Porto-Gonçalves é Doutor em Geografia pela UFRJ; Coordenador do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense e Ex-Presidente da Associação dos Geógrafos Brasileiros (1998-2000). É  autor de diversos artigos e livros publicados em revistas científicas nacionais e internacionais, sendo os mais recentes: - “Geo-grafías: movimientos sociales, nuevas territorialidades y sustentablidad“, ed. Siglo XXI, México, 2001; “Amazônia, Amazônias“, ed. Contexto, São Paulo, 2001; “Da Geografia às Geo-grafias: um mundo em busca de novas territorialidades” - “Da Geografia às geo-grafias: um mundo em busca de novas territorialidades” in  “La guerra Infinita: hegemonía y terror mundial” Sader, E. e Ceceña, Ana Esther (orgs.), Clacso, Buenos Aires 2002. “A Geograficidade do Social” in “Movimientos sociales y conflicto en América Latina” Seoane, José (org). Clacso, Buenos Aires, 2003; “Geografando - nos varadouros do mundo”, edições Ibama, Brasília, 2004.

[2] - Queremos destacar que a expressão ‘soja no cerrado’ ou ‘agronegócio no cerrado’, que vem sendo repetida na imprensa, é um absurdo lógico, até porque onde há soja e agronegócio o cerrado foi, simplesmente, devastado. Enfim, onde há soja e agronegócio não tem cerrado, sejamos precisos.

[3] - Sobre essa relação Habitat, Habitus e Habitante ver Porto-Gonçalves, 2001 - Geo-grafias - movimientos sociales, nuevas territorialidades y sustentabilidad, ed. Siglo XXI, México e Leff, E. 2001, Saber Ambiental, Cortez, São Paulo.

[4] - Indígena, na linguagem do colonizador. Evito, também, a expressão populações tradicionais já que evoca um par característico do discurso eurocêntrico, no caso, o tradicional e o moderno. Afinal, originário todos são. Toda a questão passa ser identificar esses topoi, como chama Boaventura de Sousa Santos.

[5] - Apropriamo-nos, aqui, da sábia linguagem de Guimarães Rosa que, como poucos, soube ouvir a voz dos camponeses dos Cerrados. Manoelzão que o diga.

[6] - O que é bem característico do pensamento científico moderno, tecido numa província específica do mundo, a Europa, mas imposto ao resto do mundo como se fôra universal o que, paradoxalmente, é o que caracteriza o que os europeus chamam, nos outros, de provincianismo, qual seja, não ver nada fora de seu mundo particular, provinciano.

[7] - Vide Porto-Gonçalves, 2004 - Violência e democracia no campo brasileiro - o que dizem os dados de 2003. In Conflitos no Campo Brasil - 2003 - CPT, Goiânia, 2004.

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